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terça-feira, 16 de julho de 2013

MÃE E FILHA

Reinaldo Barros, Mãe e Filha, pastel de óleo sobre papel, 2013
 
Há profundos vínculos entre mãe e filha. Cumplicidades profundas tecidas de sentimentos partilhados, pelos quais a vida flui multiplicada na continuidade da génese. Elas são as guardiãs da ternura, da compaixão, da humanidade. O seu corpo abriga o mistério dos corpos daqueles que chegam anónimos ao palco do mundo. São elas que alimentam, guiam, orientam, educam, aqueles que despertam. Há nelas um poder imenso que mesmo elas, muitas vezes, desconhecem.
Foram elas que definiram o calendário, o ciclo das luas, o valor das sementes, as ervas que curativas.
Ligadas à terra, liam o futuro e falavam com as forças invisíveis dos ancestrais.
Muito antes da história, nas primeiras idades, elas eram as filhas da grande deusa-mãe, aquela que é vida.
 
Prefiro a ideia de alguns antropólogos de que a humanidade evoluiu  pela solidariedade das mulheres entre si e que foi a compaixão pelos mais fracos e não a força que determinou o sucesso da nossa espécie.
Prefiro a ideia de que foi o amor que determinou a nossa evolução.
E nessa crença, creio que quando despertar a nova consciência humana, será o amor a determinar infalivelmente o nosso futuro coletivo.
A Terra será novamente Gaia, a Mãe, e todas as formas de Vida serão sagradas.
 
 
 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Pintura - A energia das flores

Reinaldo Barros, A Energia das Flores, técnica mista sobre tela, Julho de 2013
 
 
Não procurei nesta pintura o realismo obediente das formas mas o acto espontâneo da criação, a beleza que existe para além das formas. Beleza que só pode ser percepcionada pelos sentidos da alma e que se converte em sentimentos que são formas subtis de modelar energia e vibração.
 
A cor dos pigmentos não é suficientemente pura para traduzir em luz o que a imagem idealmente representa. Mas pulsa o contraste de cores em harmonia, conduzindo à serenidade interior, ao equilíbrio.
 
A mesma energia que vibra nas formas vegetais, vibra em nós.
Todo o universo é energia organizada em diferentes estados.
O próprio pensamento é energia.
Há uma outra realidade para lá dos corpos.
Intuitivamente sabemos isso, não sabemos é como explicá-lo.
Mas o amor sabe, o amor entende. É quanto, por ora, basta.
 
Reinaldo Barros, Julho de 2013

Os pequenos milagres da vida

Reinaldo Barros, Túnel de Cores, Julho de 2013

A criança aceita o desafio de explorar o mundo com todas as suas sensações e percepções.
A novidade estimula todos os seus sentidos e o cérebro é invadido por ondas contínuas de informação.
 
Porque é naturalmente curiosa, experimentar é descobrir, criar ciência, deslumbrar-se.
Aos poucos forma-se a consciência de si, do outro, da vida, do universo.
A memória amplia as dimensões do espaço e do tempo: voa-se ao cosmos dos grandes ideais.
 
Com essa capacidade inata, em cada um de nós repousa a chave da felicidade.
 
Mais tarde, a educação cultiva o medo que cerceia a imaginação e a criatividade.
A sociedade condiciona, a chicote, a liberdade às regras do mercado.
E todo o pensamento é trabalhado para se retrair nas angústias depressivas de um sistema social, laboral, económico e cultural que não responde aos anseios profundos da alma.
 
Deixamos de viver o mais importante de todos os momentos que é o "agora".
Definha-se em nostalgia num passado que nunca mais será ou na ilusão de um futuro que poderá nunca ser.
Morre-se por dentro que é a mais bizarra de todas as mortes, porque em cada um de nós germina o anseio da eternidade que não se compadece com a mentira coletiva que todos os dias se reformula nas subtilezas da corrupção.
 
Quem souber conservar esse estado interior da infância, saberá encontrar a beleza e a maravilha em todos os pequenos milagres da vida. E é nessas pequenas maravilhas diárias que se frui a vida e se é feliz.
 
Tudo é breve. Tudo passa. Permanece o essencial. Só o amor é eterno.

Reinaldo Barros, Julho de 2013

domingo, 7 de julho de 2013

A sombra de si

 
Na tela esticada projetam-se as sombras do mundo, lá fora.
Não há vislumbre de espaço, nem cor. Apenas silhuetas vagas e familiares.
A luz, filtrada pelo tecido que se interpõe entre o meu olhar e o mundo, é baça e difusa.
Existe uma barreira de ferro oculta que se deixa fotografar ostensivamente, sem pudor.
A imagem, estática, não registou a brisa que enfunava a tela, nem o som dos pássaros livres, nem o riso das crianças que brincam distraídas, aqui ao lado.
As sombras chinesas têm a sua poesia, o seu mistério. Mas são uma verdade manipulada e relativa.
 
Rodando o meu olhar, noventa graus à minha esquerda, vejo o mar e o céu azuis.
A encosta desce em declive suave, coberta de verdes copas, num chão vermelho e sépia.
A vida tem estes contrastes de solidão e alegria, prisão e liberdade, ocultação e transparência.
A verdadeira realidade é sempre mais do que aquilo que imperfeitamente percecionamos.
 
A sabedoria nasce de compreendermos que muitas das nossas crenças não passam de uma fugaz ilusão que se projeta na tela dos nossos pensamentos. E que todo o sofrimento decorre da mentira em que vivemos. E que somos apenas sombras de mentiras projetadas numa tela.
 
A felicidade é apenas vivenciar um estado interior para lá das aparências.
 
É preciso ser-se, para ser-se integralmente o que se é.
 
A verdade é um caminho percorrido ao encontro de si, pé ante pé.
 
Reinaldo Barros, 7 de Julho de 2013